30 Abril 2006

E fez-lhe sinal para que avançasse

“...tanto pode ser pura ficção como franca e sincera realidade.
Dois seres, em todos os momentos da vida (…), que se amaram ou não; duas vidas, mais do que mal compreendidas, não compreendidas no seio familiar em que viviam, e que buscam, na procura e troca do afecto clandestino, mil formas de viver.
...um romance, (…), feito de sonhos desfeitos e de histórias por contar, (…) ”
In, Onde a voz do silêncio se desnuda...
(fragmento 1 e 2)

“Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.”
Miguel Torga, “Cântico do Homem – Ficam as Sombras…” - poemas
10 horas e 10 minutos.
A estridente campainha eléctrica acabava de anunciar o fim do intervalo grande da manhã. Era o toque que anunciava a entrada dos alunos nas salas de aula. Era assim naquele tempo.
Habitualmente os professores entravam cinco minutos depois deste toque, o toque dos alunos, que se sentavam ordenadamente e esperavam que aqueles chegassem. Era a rigidez daquele tempo. Mas aquele professor – o professor Andrade – era sempre o primeiro a entrar. Muito antes do toque que anunciava o início da aula. Não procedia como os demais professores – que fumavam distraidamente o seu demorado cigarro pelos corredores do Liceu, ou se perdiam, no tempo, na sala dos professores e se esqueciam que os alunos também existiam.
Imponente, impecavelmente vestido, num dos seus habituais fatos de corte inglês, às riscas – fatos talhados por medida – erguia-se sumptuoso na beira do estrado onde, naquele tempo, assentava a secretária de pinho. No seu rosto, de efígie grega, crescia uma barba meticulosamente aparada. Olhava, com uma certa doçura no olhar – mais parecendo traço do pincel de Da Vince – os alunos que atabalhoadamente iam cumprimentando "Bom-dia Setôr", sem, a nenhum deles, responder. Esperava que o último se sentasse e, só depois, numa voz seca que não deixava transparecer qualquer sentimento, muito menos se conjugava com alguma doçura que o olhar ditava, cumprimentava:
"Bom-dia meus senhores" – e nunca "e minhas senhoras", que aquele era o primeiro ano lectivo em que, por decisão governamental, funcionavam as turmas mistas.

10 horas e 15 minutos.
Acabava de ditar o sumário da lição do dia para dar início a uma revisão, muito sintetizada, da lição do dia anterior. "Ora, se bem se lembram, na última aula..." – e lá discorria, em resumo, a última aula, com algumas perguntas à mistura. Muito poucas, porque menos seriam as respostas. Era próprio da dificuldade da cadeira se bem que ela se prestasse a perguntas e respostas.
Estava-se no início do último trimestre. No aula de Filosofia. Estudava-se o projecto filosófico de Kant. Naquele dia ia falar-se da Estética Transcendental. E começou, na sua voz seca e inexpressiva:
"Na Crítica da Razão Pura, Kant começa por indagar como é que é possível ao homem receber impressões."

10 horas e 20 minutos.
Rodou-se o ferrolho da porta. Abre-se. No limiar uma mulher – qual efígie egípcia – que, numa voz infantil, mais de menina mimada que infantil, pergunta:
"Posso, professor?"
Ele ficou mudo de pasmo. Petrificado, até. Seria daquela beleza divina? - "E ela, seria daquele planeta?" – Seria de qualquer memória guardada lá no mais fundo de si mesmo e agora desenterrada? Os alunos, boquiabertos. Primeiro, porque nunca ninguém ousara tratar o mestre por professor; todos eles – naquele tempo – lhe chamavam Doutor no Setôr abreviado; depois, pela mulher-colega que não dava nas vistas pelo espampanante, mas pela diferença; finalmente, porque aquela aluna era a primeira vez que pisava a sala.
O professor apenas se limitou a fazer o gesto que indicava o franquear da entrada, que a voz, essa, lhe morreu à nascença no mais fundo da garganta. Ela, apesar de alguns lugares vazios nas primeiras carteiras, foi sentar-se ao fundo, na última carteira da primeira fileira, de onde lhe permitia ter uma panorâmica completa de toda a sala.

10 horas e 21 minutos.
Foi um longo e comprometedor minuto.
"E dizia eu que, Kant, começa, na sua Crítica da Razão Pura, por indagar como é que é possível ao homem receber impressões. A estética transcendental analisa as condições subjectivas necessárias para a possibilidade de receber dados acerca de realidades exteriores à consciência, do mundo externo ou interno do sujeito. A sensibilidade é o poder que o nosso espírito tem de receber impressões. Se posso percepcionar a beleza da mulher que está diante de mim é graças a essa capacidade...
" [...] a beleza da mulher [...] " – aqui parou por segundos que lhe pareceram séculos. E olhava, fixamente, a efígie egípcia que se sentara na última carteira da sala. Cruzaram-se os olhares. Petrificou; petrificaram ambos e, por largos instantes assim terão permanecido, que só se apercebeu do inconveniente do momento quando foi despertado pela pergunta de uma aluna – o tal sabão que uma turma sempre tem – mas que, felizmente, o tirou daquele grave apuro.
"Setôr. Então é a sensibilidade que determina o modo como o objecto afecta o sujeito?" – dir-se-ia que era uma pergunta propositada, dado o momento de abstracção do professor, e para o livrar daquele embaraço comprometedor.

10 horas e 25 minutos.
Mal ele sabia – nem sequer imaginava – que estava próximo do fim de ser um professor desprovido de sentimentos e paixões.
****
"acendem-se mãos voláteis
cintilam corpos por dentro doutros corpos
surge o delírio na polpa açucarada dum sexo
e queda a queda regressamos ao possível oásis
apesar de tudo conhecemos a sede e os secretos poços dos nómadas
perseguimos outros passos lavrados nas areias da memória"
Al BertoApresentação da Noite – I Noite Próxima

Espera.”
Levantou-se de um salto do sofá que naquelas horas transviadas e de loucura servia de cama também. Dirigiu-se à janela, subiu a persiana cerca de um palmo, e certificou-se que lá fora estava tudo bem com a filha de sete anos que brincava com a amiga, da mesma idade, enteada da vizinha do andar de cima. Aquele corpo nu, curvado na janela situada ao nível da rua possibilitando apenas vislumbrar parte da cabeça se alguém do lado de fora se desse ao trabalho de espreitar, despertou nele, ainda que rendido da anterior refrega, ânsias desmedidas.
Por instantes saiu da janela. De cócoras, agora, procurava nos múltiplos álbuns musicais, de vinil, espalhados numa desordem total pelo chão da sala, um que não tardou em encontrar.

Achei…” – disse ela, esbaforida, naquela voz da gaiata alegre e despreocupada que acaba por descobrir o brinquedo, que um dia teve valor, há muito perdido no desarrumado daquelas mil coisas já sem interesse, há muito deixadas esquecidas no fundo mais recôndito do armário.

Pô-lo a rodar no prato do gira-discos da “alta-fidelidade”, coisa boa e única que conseguiu salvar dum casamento esfrangalhado e desfeito. Pink Floyd em Signs of Life. Os acordes nostálgicos das cordas à mistura com o marulhar das vagas batendo nos costados duma embarcação, pareciam gotas de orvalho que se desprendiam do éter e vinham mergulhar nas profundezas daquele abismo chamado “corpo de mulher”, que punha o mais exigente mortal, mesmo que frio como o mais gelado glaciar, com a cabeça atordoada.

Vem…” – e fez-lhe sinal para que avançasse.
Anda, vem…” – e passava a mão, numa carícia demorada e de veludo que aturdia, pelo bronzeado daquelas nádegas firmes e perfeitamente modeladas, uniformemente bronzeadas no último verão na Ericeira.

O seu corpo debruçou-se, mais uma vez, para a janela que mantinha subida a persiana de correr, no seu curto palmo de abertura. O suficiente para espreitar a filha que continuava a brincar no passeio oposto, ou para ver as pernas dos passantes apressados.
(Veio ele a saber mais tarde, quando ela extravasava nas suas confidências, que era hábito aquele desafio ao ex-marido e, também, a um amante velho – quase o dobro da sua idade – que tivera no fulgor dos seus ávidos trinta e seis anos).

Vem...” – pediu ela novamente.
Foi uma súplica, desta vez uma súplica rouca mais parecendo o gemer ferido das cordas do violoncelo. Oferecia as firmes, espetadas e morenas nádegas ao desejo. Entreabertas, deixavam à vista a vulva, farta em espessos, negros mas sedosos pêlos púbicos. Lindo monte-de-vénus aquele!

Vem… oh, vem…” – gemia agora. Aquele “vem” era apenas um sussurro. E olhava-o com olhar lânguido numa oferta de prazer incomensurável.

Um leve toque de cabeça – não o vulgar tique, mas aquele trejeito já gasto de tão estudado e repetido – fez-lhe cair sobre o rosto, a farta franja, em leque, de um loiro exageradamente oxigenado. Aquele olhar provocante, de mulher tropical – de características acentuadamente tropicais –, desafiava-o para o inventar de uma nova origem, qualquer outra maneira linda de fazer amor.
Ele, estirado nu naquele sofá-cama, gozava em silêncio aquele vulcão que brotava lavas incandescentes de paixão – um vulcão prestes a explodir. Um vulcão em erupção constante. Na semi-obscuridade daquela sala, transformada nas tardes de estio em antro de luxúria – quase depravação – flutuava no ar, misturado com as notas musicais de Pink Floyd que continuava a rodar no prato do gira-discos, um agridoce odor a suor e a esperma por lavar, que aquele corpo plúmbeo ainda exalava.

Esta música é capaz de me fazer cavalgar nua no dorso duro e sem sela dum cavalo selvagem, pelas longínquas estepes africanas… noite e dia, sem parar. Não sentes o mesmo?” – perguntou ela, fazendo alusão à sua terra natal: Moçambique.
As suas mãos começavam agora uma dança louca, que já lhe era conhecida de outras horas, percorrendo as intimidades do seu corpo nu à mistura com suspiros de prazer, que não tardariam, porque já lhe conhecia a intensidade, a serem ouvidos do lado de fora da janela.

Fecha essa porra...” – ordenou-lhe ele referindo-se à janela.
Não. Quero que na rua, quem passa, oiça os meus gemidos enquanto tu aí os sentes.” – Retorquiu, enquanto se certificava, pelo palmo da persiana aberta, se a filha se encontrava segura no exterior onde continuava a brincar.

Começou-o a incomodar aquela atitude depravada. Uma atitude, – sabia por conhecimento próprio – que ela levaria até aos limites da sua intenção. Extravasaria, mesmo, esses limites. Sabia-o bem. Daquilo que dela conhecia, nestes longos oito ou nove meses de relacionamento, jamais deixou de consumar um acto a que ela se propusesse.
Começou a dar voltas à cabeça imaginando como sair daquela situação. Sabia o quão iria ficar embaraçado, porque daí a poucos minutos ela estaria a fazer solicitações entre gemidos e gritos de luxúria que se ouviriam na rua. Até era capaz de abrir ainda mais a persiana, pois, maníaca como era, gostava de ser observada enquanto gozava com o seu corpo.
Se viesse ao menos alguém interromper a sessão…" (pensou) "…tocar a campainha, por exemplo…" – quase o implorou, em pensamento, à divina providência.
(…)

29 Abril 2006

Mater Natura

"Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos
separados por água, e fenómenos como as chuvas, as tempestades,
ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes,
eram gotículas para qualquer sorriso desfazer."

Ondjaki, E se amanhã o medo


O pardal, pequenino, cheio de medo à beira do ninho, no beiral daquele telhado, ensaiava o seu primeiro voo. Espreitava… “ui mãe, tão alto, que medo!”.

E aquela mãe teimosa saltitava de telha em telha – a telha vã daquele casebre velho e já sem vida – espanejando as asas sob o calor forte do sol que se começava a sentir. E depois para o ramo da laranjeira mais próxima que se erguia no quintal. Todo o dia naquele fadário. “Anda filho, vem… não tenhas medo. Vê… é fácil! Não custa nada!” – encorajava a mãe. E ensaiava mais um voo animador. O centésimo, ou mais…

Mas ele, o filhote e medricas pardal, a quem também o pardalão pai não conseguia demover daquele medo incompreensível, recolhia ao aconchego do ninho e ali se deixava ficar a dormitar no quente e fofo das macias penas que o atapetavam. Os seus dois irmãos, esses, há muito haviam partido e se tinham feito à vida. Arrojados e intrépidos! – “Saíram à mãe, que não ao pai, que nestas coisas de coragem ela sempre fora mais ousada; mesmo quando se tratava de roubar algum painço que a avó Ana Proença deixava a secar nas lajes de granito do balcão da casa”. – Recordava ela.

Porém, mais forte que o medo e na ânsia de partir também na conquista de novos mundos, lá se abeirou, mais uma vez, da borda do ninho naquele dia primaveril já quase no seu fim. O pardal ainda não sabia voar. Espreitou lá para baixo… abeirou-se mais… mais um pouco e, por distracção, mais do que aventura, caiu desamparado nas lajes daquele pátio onde o velho “bigodes” – gato pardo e manhoso – há muito cansara o occipital de tanto olhar para cima enquanto, ávido, lambia os beiços e cofiava os compridos e rebeldes bigodes. Veio aos trambolhões, desajeitado, esquecendo-se de bracejar as asas para sustentar o frágil corpinho no ar.

A mãe pardal, em gritos aflitivos, bem alto, advertia: “Abre os braços, filho… bate as asas, bate…”. Mas lá acabou por se estatelar nas lajes cimentadas do pátio, que os gritos da pobre mãe, desvalida, lhe não valeram de nada. Apercebendo-se do perigo eminente que representava o velho gato que, pé ante pé ia avançando para o coitado, ainda entontecido pelo tombo, encorajou a pequena avezinha a fugir: “Anda, meu pequenino… vamos… voa, faz assim…”. E lá ensaiava o pardalinho mais uma vez, e outra, e outra ainda, mil formas desajeitadas de levantar voo. Mas nada! E o velho gato pardo parece que usou a cabeça – ou talvez o coração, coisa que já é hoje difícil os humanos fazerem – e, cabisbaixo, arredou pé dali quando já se adivinhava uma morte infausta e inglória.

Veio a noite e com ela o frio que já se torna difícil qualquer humano suportar nestas terras transmontanas, quanto mais um pobre animalzinho meio guarnecido de penas. O pardalinho, encolhido, ao pé de uma couve-galega que crescia preguiçosa no quintal, para onde se arrastou com passitos tímidos, lá ia sendo alimentado pela mãe pardal que se ausentava a espaços breves em busca de gramíneas, enquanto o lusco-fusco da noite ainda alumiava o fim do dia. Fechou-se a noite e ficou mais frio. “Mesmo na primavera, fora do ninho e do aconchego das asas da mãe, gela-se!” – pensava preocupada a mãe.
Ela, toda a noite voou numa dobadoira incessante, em angústias e receios incontidos, em redor do pequenino que esperou… esperou – e tão ingenuamente... – que lhe viesse a salvação.
Morreu de madrugada, transido de frio, com a mãe a esvoaçar-lhe por cima. “Piu… piu… piu… reage, meu filho, que o dia está a chegar!” – a mãe em queixumes doloridos.
A Mãe-Natureza, pródiga, perfeita e sábia ainda sem soluções”.

A Fuga

“Por um caminho à noite caminhava
caminhava de noite sem sentido
pela própria cadência era levado
[…] Caminhava de noite e não sabia
sequer o rumo e o sentido. […]”
Manuel Alegre, em “Livro do Português Errante”



Seriam duas da madrugada.
Reinava um silêncio comprometedor. Até o galo pedrês, que funcionava como um autêntico relógio suíço, se negou a cantar naquela noite. O Leste, lá fora, cuja corrente de correr deslizava num arame de aço fixo ao chão que chegava do extremo do muro – qual muralha – à esquina oposta da casa, onde terminavam os quartos de dormir, apenas gemia baixinho. Como se estivesse com dores e não quisesse acordar os donos. Um gemido de morte... ofegante e doloroso. E foi este modo de gemer – nunca antes ouvido no animal – que os acordou. Primeiro a ele, depois a ela.

"Alzira, estás a ouvir?"
"O quê?” – Perguntou, num arrufo ensonado, na sua voz seca e áspera, de comando, como lhe era habitual, como se quisesse estar sempre a inspirar confiança e ânimo a si própria. – "Dorme mas é, e deixa-me dormir. Amanhã tenho que trabalhar."
"Hum… olha que tu... e eu não trabalho?” – Ele, amuado, virando-se para o outro lado da cama mas sempre de sentido apurado – que até era duro de ouvido.
"Alzira... – numa voz ansiosa e em sobressalto – parece que oiço passos... não ouves? Raios, tanto dormes, diabo..."

Mais uma volta na cama... e outra ainda na tentativa de conciliar o sono.
"Era impressão sua. Só podia ser" – pensou. "Culpa daquele maldito silêncio que o torturava naquela noite tão longa".

Mas aquela preocupação mórbida preocupava-o. Teve até a tentação de se levantar e ir lá fora ver o que se passava, mas algo o impelia a ficar na cama. Dava voltas e mais voltas...
Deixou de ouvir os queixumes do cão. Afinal sempre era impressão sua! A mulher tinha razão. Mas um sexto sentido dizia-lhe que não estava enganado. Deitado de barriga para o ar com os braços sob a nuca, tentava perceber, no silêncio pesado e abstracto da noite, qualquer ruído diferente dos habituais que a povoam, que lhe justificasse aquele receio inusitado.

"Maldito ouvido – pensava – que tanto me atraiçoas" – ele, em referência à sua surdez, cada vez mais evidente a cada dia que passava.

E aquela sensação estranha continuava a incomodá-lo. Tinha a certeza que ouvira algo como se fosse um leve arranhar de um gato na porta ou na janela. Talvez fosse mesmo a Malhada – nome da gata que adorava perseguir lagartixas e pássaros – atrás de alguma pomba, mais descuidada, que tivesse ficado no telhado em vez de se ter recolhido ao pombal. Mas alguma coisa lhe dizia que não!
Apurou ainda mais o outro ouvido são. Fixou o olhar, atento, num ponto fixo que parecia brilhar no negrume da noite – apesar da brancura do forro do tecto – como se de estrela se tratasse a funcionar de aviso, dentro daquele quarto onde não entrava qualquer réstia de claridade. Isto dava-lhe a certeza de ser mais preciso no que ouvia.
De repente tornou-se mais audível. Não deixava dúvidas! Era o forçar de uma porta. Da porta de entrada do comércio. Agora tinha a certeza. Estremeceu estarrecido. De um pulo saltou da cama e vestiu as calças por cima das ceroulas.

"Alzira acorda. Estamos a ser assaltados. Vão matar-nos. Ai a minha rica menina!"
"És teimoso! Vai dormir para o quarto dos rapazes..."
– referia-se àquele que fora dos filhos (um casado e a viver na cidade e outro ausente numa comissão de serviço militar em Moçambique), situado na outra ala da casa.

Mas... também ela pareceu detectar qualquer ruído diferente dos que a noite tem. Agora sim. O seu Zé tinha razão. Também ela teve a certeza. O seu ouvido de tísica – até àquele momento numa pausa prolongada de preguiça desusada – detectou logo o local exacto do arrombamento. Forçavam a porta do comércio – da loja, como lhe chamavam. Daí a pouco estariam no seu interior...
Com a celeridade que se impunha, saltou também ela da cama e vestiu a saia, mesmo do avesso, na pressa de se vestir. Ele, apesar dos seus sessenta e um anos, puxou rápido da caçadeira, postada em sentido ali aos pés da cama, e introduziu-lhe dois cartuchos. Colocou à cintura a cartucheira repleta de cartuchos carregados de zagalotes.

"Acorda a menina. Rápido... mas sem ruído. Fernandinha acorda, minha filha. Os guerrilheiros vão matar-nos... os ladrões..."

Ela, nos seus doze anos acabados de fazer, ia a querer chorar mas o dramático da situação deu-lhe forças para aguentar, como um homem, e opinar a fuga pela janela da casa de banho, que dava para as traseiras da casa. Uma janela onde mal cabia o seu corpo de criança. Era a única hipótese.
Já haviam arrombado a porta do comércio e prestavam-se a gora a arrombar a da outra casa, contígua a esta, e cujos interiores se comunicavam. Estavam já ali ao lado. Perfeitamente audíveis no seu dialecto.

"A minha rica filha!" – Lamentava-se o pai. "Fugi vós que enquanto eu tiver cartuchos não vos hão-de fazer mal."
"Nada disso. Fugimos todos. Como é que o pai lhes quer fazer frente? Vamos enquanto é tempo."
– Argumentou a filha encorajando os velhotes.

Foram segundos difíceis, de indecisão, que pareceram séculos.
Já se ouviam as vozes dos rebeldes no interior da casa, ainda ela às escuras – valia-lhes o facto de ainda não haver iluminação eléctrica naquelas bandas. Mas, por outro lado, eles também não faziam uso de lanternas a pilhas, pois pretendiam o ataque pela surpresa.
Estavam já na dependência ao lado – a escassos dez metros deles. Sentia-se no ar o odor forte da catinga misturado com o bafo agridoce do cachipembe – aguardente de açúcar mascavado e farelo fermentado – e do tabaco mascado.

"Quê da canangué?... Quê da canangué?..." – Repetiam em voz fastidiosamente ébria referindo-se à jovem.

Era agora ou nunca.
Foi o tempo necessário e suficiente para saltarem pela janela. Valeu-lhes o escuro reinante na casa e o desconhecimento da sua planta por aqueles que iam para matar. Primeiro a filha, depois a mãe e, por fim, o pai – após um último olhar para o interior escuro, na expectativa de poder desvendar um vestígio de rosto, que fosse, daqueles a quem ouvia as vozes. Mas o negrume da noite e a ausência de qualquer réstia de luz fundia-se, numa simbiose perfeita, com a negritude dos corpos.
No quintal ninguém.
Estava provado de que quem arrombara a casa e se preparava para matar não eram habitantes da sanzala. Não conheciam as traseiras da casa, caso contrário teriam também atacado por ali impedindo qualquer hipótese de fuga.
Em silêncio e sem pressas, para não serem denunciados, dirigiram-se para o fundo do pomar onde havia plantado, meia dúzia de anos antes, cerca de um milhar de laranjeiras. Passaram por um vulto branco deitado sem vida no chão – era o Leste que ingloriamente fora envenenado com qualquer comida, para perpetrarem mais à vontade o crime.

"Coitadinho! Mataram-no!" – Disse a mãe enquanto ajoelhava a seu lado numa rápida e sentida carícia – qual homenagem sagrada – ao seu alvo e frio corpo.
E desatou num convulsivo choro, sufocando na garganta um grito de raiva e desespero. Ainda lhe parecia quente aquele corpo e pareceu-lhe até que ainda respirava. Quis levá-lo consigo, ao colo, não fosse ele tão pesado...
"Coitadinho..."
"Vamos mãe!"
– E foi arrastada dali pela mão corajosa e pequenina daquela filha tão franzina e nova.

Ao passarem ao fundo do muro que circundava a casa, misturados no negrume da noite com a sombra das laranjeiras do pomar, o velho relançou um último olhar para a casa e pode ver, agora, quatro ou cinco vultos fardados e armados à porta do comércio, ora entrando ora saindo. Ainda levou a caçadeira à cara sendo, de imediato, impedido pela mulher. Terá sido a sorte dos três! A esse gesto dela ficaram os três a dever a vida.
Cabisbaixo – olhos rasos de água – dirigiu-se com a mulher e a filha para o fundo do pomar na pressa de fugir à morte.
"Tantos anos da sua vida enterrados naquela terra e naquela casa! Com que sacrifício a erguera a partir do nada. No início apenas uma casa térrea, de um compartimento, somente, e erguida a adobe. Toda a sua vida agora na mão daqueles assassinos." – E chorou enquanto, em relâmpago, recordou quase três décadas de vida perdida.
In "A Voz do Tempo", contos

as pitangas

Recorda-se que, quando era jovem, entre os seus 11 e 13 anos, e fazia o percurso de mais de 3 quilómetros, a pé, do Colégio Alexandre Herculano, na Baixa da cidade de Nova Lisboa, para a cidade alta, ficava impressionado com as coisas novas que via. Encantavam-no, principalmente, as montras. Mais as montras que expunham cigarros nas vitrinas, do que as outras. Ainda se lembra das marcas que lhe aguçavam já o apetite: AC, COIMBRA, DELTA...
Sim, com as coisas novas que via!
Coisas novas para um "miúdo" recém-chegado de uma aldeia perdida nos confins da região do Alto Douro, no "cu de Judas" lá onde Jesus Cristo perdeu as botas, que ali de sandálias não podia descer, no fundo de um vale apertado entre o alcantilado das montanhas em que corre o rio Douro que espelha, num azul celeste, o reflexo das mais férteis encostas xistosas por vinhedos enfeitadas.
Com as coisas novas que via aqui, num mundo novo, não numa grande metrópole e perdido nas luzes da ribalta, mas numa cidade que já em 1961 prometia ser grande.

Morava na parte Alta da cidade, ali mesmo ao lado do Palácio do Governador. Um grande quintal - recorda-se - cheio de frondosas mangueiras às quais os miúdos, como ele, com a diferença do pigmento da pele, se atreviam a subir, mais que subir, a trepar até às pontas dos ramos mais altos para colher aquela manga que estava mais madura do que a outra. Lá bem no alto onde o sol se espreita primeiro, mais que em qualquer outro sítio cá da terra. E também onde se consegue dele o último adeus rubro, que tarda sempre em desaparecer, porque quase eternamente quer ficar connosco, para lá do dia seguinte, numa preguiça feita esquecimento na linha do horizonte.

"Cuidado... as mangas verdes causam biliosa!" - advertia o pai cauteloso mas num tom autoritário.
"Que raio de doença mais estranha!" – pensava ele.

Então havia esse cuidado. Colher apenas as mangas bem maduras. Mas os negrinhos... esses queriam lá saber da biliosa quando maior doença, que a febre, era a fome. Havia essa diferença entre ele e os outros miúdos; é que eles subiam às escondidas não fosse o "patrão branco" surpreendê-los e corrê-los a chicote. Mas eles trepavam consigo, sob a sua fraterna protecção - mais lestos que ele na subida e na descida também - até à ponta dos ramos mais altos de onde se podia espreitar o sol e conversar com ele, em fins de tarde, depois da saída da escola.
Naqueles fins de tarde azul e anil que só o sabor tropical tem.

E aquela pitangueira?!
Ali, encostada ao fundo do quintal, era a guardiã do sítio em que o muro, já caído, servia de portal de entrada furtiva, e quantas vezes de saída apressada, aos "miúdos" negros se eram apanhados sem a presença protectora do miúdo branco.
Aquela pitangueira sempre o encantou pelo seu porte frágil, quase efeminado. Um porte frágil mas altivo, qual dama de guerreiro nobre. Considerava um sacrilégio colher os seus aveludados frutos, dispersos e envergonhadamente escondidos entre a ramagem. Gostava de os sentir entre as pontas dos seus dedos... senti-los... tão subtis quais mamilos de mulher. Mas não os colhia. Até os miúdos negros respeitavam esse seu desejo mais íntimo.

Ainda não há muito tempo, quando a sua mulher – mulher Angolana – lhe disse, num misto de surpresa e alegria, num supermercado "olha pitangas", e lhe colocou na mão aberta um minúsculo cestinho onde mal se contavam uma escassa dúzia, volveu aos seus tempos de menino, nesse espaçoso quintal e nesse longínquo ano de 1961 e, de olhos fechados, sentiu, mesmo por fora do cesto, o aveludado, de outros tempos, do casulo das pitangas entre os seus dedos.
Sentiu o cheiro agridoce do suor mal lavado dos miúdos negros desse tempo, que intrépidos subiam o rugoso tronco das mangueiras, abrindo caminho à sua frente entre a folhagem densa e áspera. Recordou as corridas apressadas e as marcas, bem vincadas no húmus húmido do quintal, deixadas pelos pés descalços dos negrinhos em fugida aflitiva em direcção ao muro já caído, onde a pitangueira, no seu porte nobre e altivo, servia de guardiã do sítio e do tempo desse tempo, sem tempo e sem regresso.
Que saudades desse tempo!
publicado em http://www.sergipe.com/balaiodenoticias/pitanga.htm

Ponto de encontro


Era aquele o seu ponto de encontro de todos os dias.
Bem cedinho, qual funcionário diligente e rigoroso no cumprimento do seu horário de trabalho, chegava muito antes das oito. Pousava junto ao pé do semáforo aquilo que restava de um blusão de ganga que obstinadamente teimava ainda em mostrar o azul no meio de tanto surro e, sob ele aconchegado, um roto saco de plástico onde guardava alguns andrajos de sua parca existência (vá-se lá saber o quê...).
E esperava que o vermelho caísse cedendo-lhe a vez o verde...

Serpenteando por entre os carros parados, aquele esqueleto cadavérico começava, então, a sua marcha mirabolante, avenida acima, avenida abaixo, mão estendida à espera que alguns cobres caíssem... mão ancilosada, sobressaindo a custo daquele braço tão maltratado pelas múltiplas picadas onde injectava o ácido que teimava emprestar-lhe a vida.
E mal o verde do semáforo substituía o rubro, o verde cor da esperança mas sem esperança para aquele cadáver ambulante, tão logo ele corria, de pernas trémulas e fontes latejantes, para o seu ponto de encontro, arfando a custo encostado ao semáforo, aguardando mais uns minutos que a cor rubra desse luz e cor à sua triste vida sem sentido.
E sempre, sempre aquele fadário...

Novo serpentear, trémulo e hesitante, deixando balbuciar uma inaudível frase, que até já os seus lábios se despregavam a custo, para fazer ouvir, num esgar de dor, o agradecimento que a alma indiferente à vida arrancava ao corpo: "obrigado meu senhor, melhor sorte para si!"
Custava ouvir isto da boca dum desgraçado a quem eu adivinhava que jamais sorrira a sorte.
E ali me pregava eu como observador, bem perto, grudado ao chão, minutos infindáveis, máquina fotográfica ao pescoço, numa hesitação constante se batia ou não batia a chapa. Mas aquela miséria indescritível impedia-me de o fazer.
Tantos lhe fechavam o vidro da janela do carro não fossem as chagas daquele corpo andrajoso e cheio de SIDA, pegarem-se-lhe...

Era nessa altura, na profundidade daquele olhar, ancorado num cais sem abrigo e quase já sem alento de vida, que se lhe liam poemas de sofrimento e dor, escritos nas rugas, cavadas fundo, dum rosto que não teria mais que trinta anos mas tão envelhecido precocemente.
Um dia deixei de o ver... “ter-se-ia atrasado?!” – pensei.
E outro, e mais outro, e outro dia ainda...
Uma pancada surda abanou-me por dentro e apertou-me a alma.
Morrera!” – cogitei. Um pensamento que me perseguiu, dias seguidos, por quase três infindáveis meses... E por ali continuava eu a passar, diariamente, sem necessidade expressa de o fazer, quando tinha caminhos mais curtos que me levavam ao meu destino. Mas era inevitável que o fizesse para saber se aquele cadáver ambulante ainda não tinha morrido. Eu sabia – no íntimo eu sabia – que aquele desgraçado não tinha morrido!
E um dia, ei-lo de volta àquele ponto de encontro.
Não estava apenas mais esquelético... mais do que esquelético, uma cor que incomodava esbatia o seu rosto entre o amarelo e o verde. A hepatite, em grau avançado, minava em todos os quadrantes a sua vida. A hepatite, pela certa a SIDA!

Já não corria por entre as filas de carros avenida acima, quando o vermelho acendia, que a recusa das suas pernas era quem lhe comandava agora a vida.
A torpe vida...
Ali mesmo, junto ao semáforo vermelho se emparedava, dobrado em dois, entre as duas filas de carros, de braço estendido e mão dobrada em concha.Um dia atrasou-se... e outro, e mais outro, e outro ainda…Deixou de vir para sempre!...

21 Abril 2006

Uma luz que cegava...

“Mas também não queria morrer de repente,
sem ter tempo para um último adeus à vida.
Porque não queria morrer de modo nenhum.”
José Manuel Fajardo, “Os Demónios à Minha Porta” - romance



Noite de 11 para 12 de Dezembro de 1949.
Noite de breu por terras de ninguém. Embrulhado num novo e grosso "cobertor de papa", alvo de neve – na cor da origem e agora reforçada pelo acumular dos farfalhos espessos da neve que caía – incutia ânimo ao "carriço" – nome do corpulento macho – que a sogra Ana lhe emprestara para a viagem de mais de 60 quilómetros, na ida e no regresso. Ânimo ao animal e a ele próprio, também, tolhido de frio e de medo naquela noite que fora feita para temer Deus.
Há muito que passara pelas Mós e deixara Seixas para trás. Andaria, a julgar pelo tempo dispendido desde que saíra de Freixo de Numão, da casa do Doutor Beirão depois de lhe dar notícia de como correra o parto da mulher, por alturas do Poço Escuro. Local de temer, este! Assim se designava aquele sítio, no monte do Fojo, quase no desaguar da ribeira que dá vida ao Vale da Teja – temível até de dia, naquele tempo, por ser coito de temíveis lobos, quanto mais numa noite como aquela. Onde até, diziam, as bruxas da vizinha aldeia de Seixas faziam danças macabras. Se as suas contas não falhassem, estava aqui estava na dobra do caminho, entre os túneis, a dois palmos da sua aldeia.
De repente um uivo aterrador. Mesmo ali ao lado. Relinchou o macho que se empinou nos quartos dianteiros quase o atirando ao chão, e uivou, do lado oposto, outra besta. Os lobos! Eriçaram-se-lhe os cabelos agasalhados sob a espessa lã de ovelha da manta que o cobria. Ergueu-se, novamente, nas dianteiras o nobre animal e recusou-se a andar.
“Anda machinho, anda..." – animou o afoito Zé “Proença”. E, com a frágil vergasta de giesta verde, fustigou-o uma e outra vez. E nada. Nem a força dos calcanhares das botas nas ilhargas faziam avançar o animal.
Com as mãos geladas e gretadas pelo frio e labor árduo do campo, nos seus afazeres diários, procurou no fundo do bolso falso da samarra o isqueiro que aí escondia para certas ocasiões – ali bem oculto, não fosse a Guarda Republicana descobri-lo e autuá-lo por desrespeitar a tão injusta lei imposta por Salazar. Encontrou-o. Com dificuldade começou a fazer chispas para tentar afugentar as bestas – agora pelo menos quatro – que seguiam, ladeando, o velho macho. Mas a torcida do isqueiro em breve ficaria húmida com a neve que caía.
"Vamos machinho, vamos. Estamos quase em casa. Não há cabrão de lobo nem puta de bruxa que nos faça frente!"
Aflitivamente apercebia-se que nunca mais chegava à dobra do caminho, entre túneis, de onde podia visionar, se de noite de lua cheia se tratasse, o fumo a escoar-se pelas aberturas da telha vã, levantada em "V" a servir de chaminé. Contudo, o nobre animal continuava a andar, num passo nervoso e acelerado.
"Raios. Enganei-me nos cálculos que fiz. Ainda devo estar muito longe da Quinta de Porto de Bois. Parece bruxedo..." – dizia para o seu companheiro de viagem, o macho, numa voz que pretendia confortá-lo a ele mesmo.
E andou, perdido no tempo, por tempo sem fim, naquela noite em que lhe nasceu o filho mais velho. Não saiu do hospital enquanto as "irmãzinhas" – as freiras enfermeiras – lhe não disseram que era um latagão e tinha sido tirado a ferros.
"Ias matando a tua mãe..." – dizia-lhe o velhote, muitos anos mais tarde, sempre que vinha à baila aquela noite gelada de 11 de Dezembro de 1949.
Só depois, já noite dentro, saltou para o lombo do macho e deixou que o instinto animal fizesse o percurso de 30 quilómetros de regresso a casa. Mas agora aquele dilema. Jamais chegava. E, pior que o não chegar, era não saber onde estava.
Abrandou a neve. Pareceu-lhe ver que o dia ia aclarar. Custava-lhe a crer que tal fosse verdade. Por mais que espreitasse o relógio de bolso, não conseguia ver as horas. E, para mal dos seus pecados, já nem o isqueiro dava faísca. Os lobos desapareceram como por milagre – sinal evidente de que estaria próximo de lugar habitado. Sinal disso, foi a mudança de som do bater dos cascos das patas do animal no terreno. Era dedutível que pisava o empedrado de uma rua.
Na escuridão total nem conseguia vislumbrar as casas – parecia mesmo que nem as havia. Perscrutava, de um e outro lado daquilo que pensava ser uma rua empedrada, e nada. De casas, nem sombras.
"Será Seixas?! Mas… a ser Seixas, só se tivesse voltado para trás!" – pensou.
De repente o animal estacou. À sua frente, agora bem visível, uma porta entreaberta naquela que parecia ser a última casa da povoação. Incentivou o quadrúpede a seguir viagem, mas ele continuou estático de orelhas espetadas – mais espetadas do que quando lhe apareceram os lobos.
Era efectivamente uma casa. A confirmá-lo franqueou-se, como por milagre, uma porta entreaberta e extravasou um jorro de luz para o exterior. Uma luz que cegava naquela noite de breu. Do interior, o som de uma música que nunca ouvira antes, misturada com risos e coros femininos. Uma figura alta e esguia, vestida com uma túnica vermelha, de cabelos negros, soltos e espalhados pelos ombros, convidou-o a desmontar e entrar para a festa.
"Mas que festa? – interrogou. "E onde estou?" – perguntou também.
"A festa da noite das bruxas cá da terra. Não disseste tu, há horas atrás, já perto da tua aldeia, que nem lobo nem puta de bruxa te fazia frente?" – respondeu-lhe, rispidamente, a figura de vermelho.
De imediato, numa prece a Deus, de quem era fervoroso, levou a mão ao peito e agarrou a cruz do terço que naquele dia pendurara ao pescoço. E o feitiço, de imediato, se quebrou.

20 Abril 2006

“Furriel" – era o seu nome!

- Ao Fernando Barão, cidadão do mundo, nesse tempo em que a guerra fazia “Amigos”

"Para ele o mundo era um quintal enorme
dotado de compartimentos separados por água,
e fenómenos como as chuvas, as tempestades,
ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios
enormes, eram gotículas para qualquer sorriso desfazer"
Ondjaki, “E se Amanhã o Medo"- contos


Por hábito, vinha manhã cedinho, para o cais, e por ali se deixava ficar, o dia todo, embrenhado em pensamentos longínquos, sentado em qualquer caixote velho que o esquecimento dos homens ali faria apodrecer. Noutras alturas, quando o coração lhe ditava certo desassossego – fruto das saudades daquele que lhe deu o nome, mais que o nome, a vontade de viver – empoleirava-se no mais alto amontoado dos fardos de algodão da COTONANG, à espera de vez para o embarque no cargueiro que não tardaria em atracar, e olhava o oceano distante – ali tão perto – com olhar sedento, na esperança de ainda poder vislumbrar o paquete que há muito tempo desaparecera para lá da linha do horizonte. E assim se deixava embebedar, desde manhã cedinho – melhor altura para ludibriar o Guarda-fiscal e entrar furtivamente no porto de embarque – até o sol se esconder na rota de luz para o outro lado do mundo.
Saía do seu sonho – já tarde noite – quando a voz do carregador do penúltimo turno, roufenha e enferrujada pela aguardente que lhe lubrificava a goela, gritava:

"Acorda negro de merda, acorda que o teu furrier foi 'mbora no puto, já no vorta mais."

Saltava dali – ele e duas lágrimas teimosas a rolarem-lhe pela face suja – e corria, para afogar a dor da saudade, para além da porta grande do porto de embarque. De Luanda se tratava. Para lá da porta grande parava e, por um instante breve, olhava o relógio que, lá no alto da torre, marcava o tempo – o tempo que para ele parara –, o tempo que ele já não tinha para alcançar o amigo branco que o achou esfarrapado, mais que esfarrapado, nu, lá no seio da mata e lhe deu um nome. "Furriel" lhe chamou, depois de não saber por que nome lhe chamar. "Furriel" lhe chamou, depois de apontar para o dourado das divisas que lhe enfeitavam os ombros e dizer:

"Eu furriel, tu furriel, também!" – e "Furriel" ficou, de nome de baptismo, na Missão Católica do Cacolo.

Uma última olhadela ao relógio da torre existente – naquele tempo – no cais de embarque, antes de deitar a correr, avenida acima, não tardaria, para os lados da Mutamba, onde buscaria algo para o aconchego do estômago em quaisquer restos depositados nos tambores do lixo à porta dos cafés e restaurantes. Depois, num vão de escada qualquer, ou mesmo debaixo de um maximbombo, daqueles que fazem a última viagem e por ali estacionam até à manhã seguinte – que nem sequer herdara, vindo das matas onde nascera, o direito a viver num dos Musseques da cidade grande – repousaria o corpo de menino sonhador que a alma, essa, viajava há muito nas lonjuras dum oceano distante e por lá se deixaria ficar até um novo amanhecer.

In "A Voz do Tempo", contos

19 Abril 2006

O aconchego (...) no absolutamente nada

"Não olharei mais este relógio. É preciso, nesse momento,
subverter o poder do tempo. Encontrar dentro de mim
os restos daquela força que se perdeu."
Jeová Santana, em "A Ossatura"


"Ajuda-me... por favor, ajuda-me!" – suplicava-lhe ela, num quase inaudível murmúrio, enquanto se entregava, de alma carente, na ternura de dois beijos, sentada a seu lado à beira do Zêzere que logo se encontra, a dois passos dali, num abraço apertado com o Tejo.

O dia não era o melhor. Pesadas nuvens pairaram, toda a manhã, sobre as suas cabeças desde a entrada na cidade de Tomar, onde se encontraram pela primeira vez, até ao Castelo de Almourol, passeio (quase) pré-estabelecido. Aliás, foram surpreendidos por uma forte bátega de água nesse seu primeiro encontro. Costuma dizer-se, a propósito de enlaces matrimoniais: "casamento molhado, casamento abençoado!" – mas aquele encontro nem para namoro fora perspectivado, muito menos para noivado ou outra coisa qualquer. Um encontro que nem sequer teria gestação quanto mais parto desejado... Talvez fosse, mesmo, um aborto à nascença antes de ser concebido!
O ambiente, entre ambos, conquanto não parecesse, era frio... Quase tão frio como as gotas de chuva que, de ora em vez, caíam lá de cima, grossas e aos trambolhões, desajeitadas, e rolavam sobre as suas cabeças despenteadas, onde a marca da idade se reflectia há muito.

No rio, naquele estreito braço de rio, onde se via o fundo e nele reflectido a silhueta do castelo, passeava-se um grupo de patos marrecos, distraídos e alheios aos dois transeuntes. Mais abaixo, numa brincadeira de crianças, meio aconchegados à protecção oferecida pela carcaça dum velho barco que teimava ter ainda, metade de si mesmo, dentro de água, um bando de mais de uma dezena de patos filhotes, para os quais ela lhe chamou a atenção, numa exclamação, quase de criança, no seu já avançado meio século de vida. Com uma alegria incontida no seu olhar de mulher-menina, como se fosse aquela a primeira descoberta da sua vida!
Exactamente nesse momento, ele – dado sempre a reflexões de que ela nunca se chegou a aperceber – reflectia nisso mesmo; na observação – talvez mania de poetas – dos patos adultos que se deixavam ir ao sabor da corrente, comparando-se-lhes, sem a coragem necessária para fazer um exame auto-crítico de si mesmo e dos seus actos e parar por ali, naquele exacto momento, aquilo que jamais poderia ser o que quer que fosse. Por isso, e sem se aperceber disso – ou disso se não querer aperceber – deixou-se ir na corrente, distraído e absorto, e foi parar à margem do Zêzere, embebedar-se de esperança e dando esperança a quem se quisesse embebedar dela.

A vontade deles, de almas desarrumados, negava-se a pôr cobro à insensatez. Mãos nas mãos, dedos entrelaçados, num silêncio mudo e comprometedor que teimava em dizer mais que um livro aberto, continuavam presos, como íman, à margem do rio que banha aquela terra por onde – dizem – Camões passou. Numa entrega, sem explicação racional, os lábios de ambos procuravam-se, avidamente, a intervalos descompassados. Era a força do momento inexplicável, a necessidade de transformar o impossível – mesmo, transformar o intransformável – sem a busca de qualquer manuseamento erótico, que algo, mais forte que a razão e que o coração também não saberia explicar, que os levava a selar promessas mudas, jamais feitas, nesses beijos de ansiedade e de medo incontidos. Quase não havia o uso das palavras. E, se as havia, ficavam-se por frases incompletas qual fumo dos cigarros que constantemente fumava e se diluía no éter, como o nada. O silêncio, mesmo assim, deixava nada por dizer. Mais importante que tudo, no momento, era o aconchego dos dois corpos naquele absolutamente nada.