E fez-lhe sinal para que avançasse
Dois seres, em todos os momentos da vida (…), que se amaram ou não; duas vidas, mais do que mal compreendidas, não compreendidas no seio familiar em que viviam, e que buscam, na procura e troca do afecto clandestino, mil formas de viver.
...um romance, (…), feito de sonhos desfeitos e de histórias por contar, (…) ”
(fragmento 1 e 2)
“Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.”
Miguel Torga, “Cântico do Homem – Ficam as Sombras…” - poemas
A estridente campainha eléctrica acabava de anunciar o fim do intervalo grande da manhã. Era o toque que anunciava a entrada dos alunos nas salas de aula. Era assim naquele tempo.
Habitualmente os professores entravam cinco minutos depois deste toque, o toque dos alunos, que se sentavam ordenadamente e esperavam que aqueles chegassem. Era a rigidez daquele tempo. Mas aquele professor – o professor Andrade – era sempre o primeiro a entrar. Muito antes do toque que anunciava o início da aula. Não procedia como os demais professores – que fumavam distraidamente o seu demorado cigarro pelos corredores do Liceu, ou se perdiam, no tempo, na sala dos professores e se esqueciam que os alunos também existiam.
Imponente, impecavelmente vestido, num dos seus habituais fatos de corte inglês, às riscas – fatos talhados por medida – erguia-se sumptuoso na beira do estrado onde, naquele tempo, assentava a secretária de pinho. No seu rosto, de efígie grega, crescia uma barba meticulosamente aparada. Olhava, com uma certa doçura no olhar – mais parecendo traço do pincel de Da Vince – os alunos que atabalhoadamente iam cumprimentando "Bom-dia Setôr", sem, a nenhum deles, responder. Esperava que o último se sentasse e, só depois, numa voz seca que não deixava transparecer qualquer sentimento, muito menos se conjugava com alguma doçura que o olhar ditava, cumprimentava:
"Bom-dia meus senhores" – e nunca "e minhas senhoras", que aquele era o primeiro ano lectivo em que, por decisão governamental, funcionavam as turmas mistas.
10 horas e 15 minutos.
Acabava de ditar o sumário da lição do dia para dar início a uma revisão, muito sintetizada, da lição do dia anterior. "Ora, se bem se lembram, na última aula..." – e lá discorria, em resumo, a última aula, com algumas perguntas à mistura. Muito poucas, porque menos seriam as respostas. Era próprio da dificuldade da cadeira se bem que ela se prestasse a perguntas e respostas.
Estava-se no início do último trimestre. No aula de Filosofia. Estudava-se o projecto filosófico de Kant. Naquele dia ia falar-se da Estética Transcendental. E começou, na sua voz seca e inexpressiva:
"Na Crítica da Razão Pura, Kant começa por indagar como é que é possível ao homem receber impressões."
10 horas e 20 minutos.
Rodou-se o ferrolho da porta. Abre-se. No limiar uma mulher – qual efígie egípcia – que, numa voz infantil, mais de menina mimada que infantil, pergunta:
"Posso, professor?"
Ele ficou mudo de pasmo. Petrificado, até. Seria daquela beleza divina? - "E ela, seria daquele planeta?" – Seria de qualquer memória guardada lá no mais fundo de si mesmo e agora desenterrada? Os alunos, boquiabertos. Primeiro, porque nunca ninguém ousara tratar o mestre por professor; todos eles – naquele tempo – lhe chamavam Doutor no Setôr abreviado; depois, pela mulher-colega que não dava nas vistas pelo espampanante, mas pela diferença; finalmente, porque aquela aluna era a primeira vez que pisava a sala.
O professor apenas se limitou a fazer o gesto que indicava o franquear da entrada, que a voz, essa, lhe morreu à nascença no mais fundo da garganta. Ela, apesar de alguns lugares vazios nas primeiras carteiras, foi sentar-se ao fundo, na última carteira da primeira fileira, de onde lhe permitia ter uma panorâmica completa de toda a sala.
10 horas e 21 minutos.
Foi um longo e comprometedor minuto.
"E dizia eu que, Kant, começa, na sua Crítica da Razão Pura, por indagar como é que é possível ao homem receber impressões. A estética transcendental analisa as condições subjectivas necessárias para a possibilidade de receber dados acerca de realidades exteriores à consciência, do mundo externo ou interno do sujeito. A sensibilidade é o poder que o nosso espírito tem de receber impressões. Se posso percepcionar a beleza da mulher que está diante de mim é graças a essa capacidade...”
" [...] a beleza da mulher [...] " – aqui parou por segundos que lhe pareceram séculos. E olhava, fixamente, a efígie egípcia que se sentara na última carteira da sala. Cruzaram-se os olhares. Petrificou; petrificaram ambos e, por largos instantes assim terão permanecido, que só se apercebeu do inconveniente do momento quando foi despertado pela pergunta de uma aluna – o tal sabão que uma turma sempre tem – mas que, felizmente, o tirou daquele grave apuro.
"Setôr. Então é a sensibilidade que determina o modo como o objecto afecta o sujeito?" – dir-se-ia que era uma pergunta propositada, dado o momento de abstracção do professor, e para o livrar daquele embaraço comprometedor.
10 horas e 25 minutos.
Mal ele sabia – nem sequer imaginava – que estava próximo do fim de ser um professor desprovido de sentimentos e paixões.
cintilam corpos por dentro doutros corpos
surge o delírio na polpa açucarada dum sexo
e queda a queda regressamos ao possível oásis
apesar de tudo conhecemos a sede e os secretos poços dos nómadas
perseguimos outros passos lavrados nas areias da memória"
Al Berto “Apresentação da Noite – I Noite Próxima”
“Espera.”
Levantou-se de um salto do sofá que naquelas horas transviadas e de loucura servia de cama também. Dirigiu-se à janela, subiu a persiana cerca de um palmo, e certificou-se que lá fora estava tudo bem com a filha de sete anos que brincava com a amiga, da mesma idade, enteada da vizinha do andar de cima. Aquele corpo nu, curvado na janela situada ao nível da rua possibilitando apenas vislumbrar parte da cabeça se alguém do lado de fora se desse ao trabalho de espreitar, despertou nele, ainda que rendido da anterior refrega, ânsias desmedidas.
Por instantes saiu da janela. De cócoras, agora, procurava nos múltiplos álbuns musicais, de vinil, espalhados numa desordem total pelo chão da sala, um que não tardou em encontrar.
“Achei…” – disse ela, esbaforida, naquela voz da gaiata alegre e despreocupada que acaba por descobrir o brinquedo, que um dia teve valor, há muito perdido no desarrumado daquelas mil coisas já sem interesse, há muito deixadas esquecidas no fundo mais recôndito do armário.
Pô-lo a rodar no prato do gira-discos da “alta-fidelidade”, coisa boa e única que conseguiu salvar dum casamento esfrangalhado e desfeito. Pink Floyd em Signs of Life. Os acordes nostálgicos das cordas à mistura com o marulhar das vagas batendo nos costados duma embarcação, pareciam gotas de orvalho que se desprendiam do éter e vinham mergulhar nas profundezas daquele abismo chamado “corpo de mulher”, que punha o mais exigente mortal, mesmo que frio como o mais gelado glaciar, com a cabeça atordoada.
“Vem…” – e fez-lhe sinal para que avançasse.
“Anda, vem…” – e passava a mão, numa carícia demorada e de veludo que aturdia, pelo bronzeado daquelas nádegas firmes e perfeitamente modeladas, uniformemente bronzeadas no último verão na Ericeira.
O seu corpo debruçou-se, mais uma vez, para a janela que mantinha subida a persiana de correr, no seu curto palmo de abertura. O suficiente para espreitar a filha que continuava a brincar no passeio oposto, ou para ver as pernas dos passantes apressados.
(Veio ele a saber mais tarde, quando ela extravasava nas suas confidências, que era hábito aquele desafio ao ex-marido e, também, a um amante velho – quase o dobro da sua idade – que tivera no fulgor dos seus ávidos trinta e seis anos).
“Vem...” – pediu ela novamente.
Foi uma súplica, desta vez uma súplica rouca mais parecendo o gemer ferido das cordas do violoncelo. Oferecia as firmes, espetadas e morenas nádegas ao desejo. Entreabertas, deixavam à vista a vulva, farta em espessos, negros mas sedosos pêlos púbicos. Lindo monte-de-vénus aquele!
“Vem… oh, vem…” – gemia agora. Aquele “vem” era apenas um sussurro. E olhava-o com olhar lânguido numa oferta de prazer incomensurável.
Um leve toque de cabeça – não o vulgar tique, mas aquele trejeito já gasto de tão estudado e repetido – fez-lhe cair sobre o rosto, a farta franja, em leque, de um loiro exageradamente oxigenado. Aquele olhar provocante, de mulher tropical – de características acentuadamente tropicais –, desafiava-o para o inventar de uma nova origem, qualquer outra maneira linda de fazer amor.
“Esta música é capaz de me fazer cavalgar nua no dorso duro e sem sela dum cavalo selvagem, pelas longínquas estepes africanas… noite e dia, sem parar. Não sentes o mesmo?” – perguntou ela, fazendo alusão à sua terra natal: Moçambique.
As suas mãos começavam agora uma dança louca, que já lhe era conhecida de outras horas, percorrendo as intimidades do seu corpo nu à mistura com suspiros de prazer, que não tardariam, porque já lhe conhecia a intensidade, a serem ouvidos do lado de fora da janela.
“Fecha essa porra...” – ordenou-lhe ele referindo-se à janela.
“Não. Quero que na rua, quem passa, oiça os meus gemidos enquanto tu aí os sentes.” – Retorquiu, enquanto se certificava, pelo palmo da persiana aberta, se a filha se encontrava segura no exterior onde continuava a brincar.
Começou-o a incomodar aquela atitude depravada. Uma atitude, – sabia por conhecimento próprio – que ela levaria até aos limites da sua intenção. Extravasaria, mesmo, esses limites. Sabia-o bem. Daquilo que dela conhecia, nestes longos oito ou nove meses de relacionamento, jamais deixou de consumar um acto a que ela se propusesse.
Começou a dar voltas à cabeça imaginando como sair daquela situação. Sabia o quão iria ficar embaraçado, porque daí a poucos minutos ela estaria a fazer solicitações entre gemidos e gritos de luxúria que se ouviriam na rua. Até era capaz de abrir ainda mais a persiana, pois, maníaca como era, gostava de ser observada enquanto gozava com o seu corpo.
(…)


